16
Jun
05

A solidão

Colo meus olhos no difuso aglomerado das três cores primárias do monitor, perco-me olhando para o mais recôndito ícone, busco sem fronteiras mentalizar-me que um deles poderá talvez entregar-me a sensação que tanto prezo do “passar tempo de maneira desmesurada”, em fracções de segundo rendo-me à evidencia, procuro algo que me conforte, eis que começa a viagem, arrasto-me para fora da cadeira, dou por mim no ponto incipiente do corredor, descontraio os músculos do pescoço, a cabeça inclina-se lentamente, e mais uma vez colo os olhos no chão, sinto a sua frieza na planta pés, ouço o ranger da madeira a cada passo meu, como por puro instinto ponho um pé em frente ao outro, a imperfeita horizontalidade do braço coloca o dedo na parede branca e acompanha todas as suas curvas sinuosas até a sala. O raio de luz proveniente da janela ilumina o meu rosto enrugado pela ofuscante claridade, de olhos semicerrados dirijo-me ao comando da televisão, o silêncio é rasgado pelo barulho dos electrões que se passeiam freneticamente pelo cátodo, eis que as colunas juntam as primeiras notas, a sala de facto encontra-se agora completa, a minha cabeça? Ainda não. Aumento o volume, corro com velocidade relâmpago os 43 canais, acto tão inconsciente este que ajuda-me apenas a manter algo, que por muito físico que seja, ocupado. Chega? Ainda não. Cozinha penso eu… há sempre alguma coisa para fazer numa cozinha. Eis-me então a enveredar por esse caminho, fruta de aspecto dúbio abandonada dentro de uma tina contígua ao fogão. Dando jus à minha insanidade, vejo o sorriso endiabrado da tina, travo uma batalha contra um pelotão bem armado de mosquitos que não cessam de me combater pela sua usurpada fonte de subsistência, devido à minha intervenção a tina jaz no fundo de um saco preto de lixo. E os mosquitos? Os mosquitos não… Parece que ficaram enfurecidos, tendo-me apenas a mim para descarregar a sua cólera, corro para fechar as portas com a finalidade de criar uma descansada divisória entre o pelotão e eu. Esgotadas as ideias e fés, encaminho-me para o quarto mais uma vez… Uma aclamada janela de Messenger teima em abrir… mais uma ideia discorreu, musica, prontamente ponho a playlist a tocar e atiro corpo como que desprovido de vida para cima de um qualquer edredão de penas. Silencio? Essa é já meta ultrapassada, com a televisão, a musica, a correria dos carros na rua, a vizinha do lado a abanar a roupa molhada perto do estendal, as luzes do quarto, a luz natural do sol que entra pela varanda e os filamentos luminescentes do relógio digital nem os meus pensamentos consigo ouvir, nada parece acalmar a minha angústia. A minha humilde conclusão é que, neste estado, nada podemos fazer para melhorar, para acordar, para encontrar coragem que nos falta neste dia tão inusitado para enfrentar o mundo. Pessoalmente, duas coisas entregam-me de mão beijada a um estado idêntico ou semelhante a este… Um são os exames, o outro não digo…

LV-426 [HyperDyne Systems ®]

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12 Responses to “A solidão”


  1. 1 Nexis
    Quinta-feira, 16 Junho, 2005 às 09:51

    Fdx… adorei este post.

    Uma das coisinhas mais bonitas que por aqui se tem escrito.

    Fica a minha vénia de sincera reverencia.

    Baci mille.

  2. 2 Zubias
    Quinta-feira, 16 Junho, 2005 às 11:13

    Curti muito!! O que aqui descreveste é o que passa muitas vezes com todos nós… Quando não há nada pra fazer, não mesmo NADA pra fazer! E se há muito pra fazer cansamo-nos só de pensar que temos k fazer!
    abraços pra todos os parrraxistas!!

    Zubias

  3. 3 pako
    Quinta-feira, 16 Junho, 2005 às 12:28

    Como eu te compreendo… Abraço!

  4. 4 llnk
    Quinta-feira, 16 Junho, 2005 às 18:13

    lol pah ta fixe ai .. curti a luta com os moskitos n é nd faxil lol.. mas prontos ta curtido o text.. ai tanta coisa escrita e xpressa. tanto palvreado pra dixeres k tas so em casa pra nada faxer… lol…. abraxo migao.. ta potente isso []

  5. 5 karollxita
    Quinta-feira, 16 Junho, 2005 às 19:00

    eras tu a guerra cos moskitos e eu cuma melga as 4 da manha lol
    bem o text ta excelente…ja t dix k dbs ter um dixionário de serviço 24 sobr 24h…sim snhr ist é ké!
    dias destes parecem n ter fim…e nd parece nos satisfazer…como t percebo mou riko pai!
    Beiju gnde***** 😉

  6. 6 Never_Born
    Sexta-feira, 17 Junho, 2005 às 12:18

    Paiii?!?! Se calhar é por isso que te deixas cair nesse estado de desgraça.

    Uma koisa k n pude deixar de reparar nos comentarios, ja viram ke todos nós(eu incluido obviamente) dizemos k kompreendemos a situação e ke passamos por isso e bla-bla-bla?!?!? Pois bem, nenhum de nós foi kapaz de o passar pro “papel”…

    Por td isto eu digo, obrigado “sôr élbê!!!

  7. 7 rellax
    Sábado, 18 Junho, 2005 às 00:14

    Ele andava muito calado… Mas quando falou, falou bem!
    Olha, subscrevo o que ja foi dito… Tu tás lá!

  8. 8 koala
    Domingo, 19 Junho, 2005 às 03:47

    Confesso que antes de comentar, li e reli as x suficientes para me consciencializar da luminosidade e da sonoridade desde teu texto! adorei! By the way, mencionaste uma qualquer janela no pc, e umas qtas reticencias no final… n conhecia essa tua faceta de suspense:p a ber s s da continuidd aos 3 pontinhx!************

  9. 9 Anonymous
    Segunda-feira, 20 Junho, 2005 às 19:05

    Mto bom… Como disse o Never_Born, todos compreendem e todos ja passaram ou tao a passar por isso. Gostaria de saber s poderia usar este teu texto num blog conjunto ao qual pertenço. Akilo anda um bocado parado e presumo q a razao para tal letargia esteja mto bem explicada no teu post. (claro q irá ser devidamente identificado a kem pertence o texto e de onde foi retirado). Parabéns, tás mto lá.

  10. 10 LV-426
    Segunda-feira, 20 Junho, 2005 às 23:12

    Thas a vontade… Nunca fui uma alma invejosa… é que nem filho unico sou…

    Abraço/Beijo (mediante o instrumento)

  11. 11 Bam
    Terça-feira, 21 Junho, 2005 às 00:10

    Lol, tkx. S tiveres curiosidade em visitar o url é: http://www.raveinthecave.blogspot.com
    (aviso desde ja q é uma bela de uma merda, lolol)
    Xeguei aki ao zupaxis por intermedio de uma amiga de longa data.

    Abraço (ficamos esclarecidos kt ao instrumento, lol)

  12. 12 samael-lateralus
    Domingo, 26 Junho, 2005 às 14:40

    a parte inicial do texto faz-me lembrar as minhas viagens sempre a abrir janelas pela net fora sem uma meta consciente depois de uns charutos bem fumados!


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