26
Jun
05

Ensaio (para quem diz que o que eu escrevo é secante)

É engraçado olhar pela janela e sentir uns devastadores quarenta graus là fora. Aqui estarao à volta de dez. Estou na sala de estudo da minha residencia, que é conhecida em toda a Padova pelo (excelente) ar condicionado: convergem “jovens estudantes” universitàrios de toda a cidade para estudar aqui. Tem razao: é bem iluminada, silenciosa (pese o nùmero de almas) e fresquissima. É mesmo engraçado ver pessoal com cachecois e calçoes, casacos e havaianas, cà dentro…

Nao entra mais Assembly em arquitectura ARM, nem quero ler mais sobre o processador PD32, hoje. Raisparta as cadeiras de informàtica! Eu gosto é de telecomunicaçoes, porra.
Entao, tirei esta folha, comecei a olhar em volta e decidi escrever para o blog…

Estou sentado numa mesa (de oito) com dois italianos, um polaco e uma inglesa: sei pouquissimo sobre eles. Mas “vivem” comigo… nao é estranho?

O Moleskine mais importante do Mundo (o meu), abre com a seguinte frase: «Criar o nosso mundo é direito inato! Nao exercer cada escolha, sentindo-a, é pior que escolher contentarmo-nos em procurar alguém com quem patilhar o nosso corpo, e nao encontrar a pessoa para partilhar a nossa vida, ao invés. Tiago Borges Baptista»

Eu acredito na Escolha, na Opçao, constante como forma de vida: (acredito) que é Escolhendo que se vive; e Escolhe-se a todo o momento sobre o todo, sobre a Vida, principalmente “sobre Nos”. E realmente, as escolhas “sobre o Eu” sao as mais importantes, sao delas as reflexoes (e os reflexos) no nosso circundante, que mais que definir-nos perante a circunstancia, condicionam a circunstancia perante a nossa (propria) definiçao, consequente da escolha. Ou seja, Escolha, Eu, Mundo-Outro, Vida, Eu, Escolha… Assim erra o nosso espirito, deambula.

Ora, cada Escolha, mesmo que minima, mesmo que menor, jamais é dispensavel. Porque se ha escolhas e Escolhas, ha definiçoes e Definiçoes do Ser.
A grande audàcia està em sentir cada escolha, isso sim é dificil, isso sim é gratificante. Mesmo que sejam estas as menos pensadas, quiçà as “nao-pensantes”, nao deixam de ser Escolhas da nossa Existencia, de elevaçao terrena do ser pela Escolha.
Sem querer afrontar o grande mestre Descartes, o seu cogito ergo sum nao sera sempre aplicavel, pois nem sempre a Escolha pode ser pensada (ou racionalizada) mas sempre Sentida (pensamento, diferente de sentimento)! Entao, penso logo existo? Quando nao penso, existo? E quando sinto? Se Sinto constantemente a Circunstancia, o Outro, a Vida, como reflexo dialectico do Escolher permanente, pois se Escolho, Sinto e se Sinto, Escolho, nao sera antes, Sinto, logo existo?

O pensamento nao é ininterrupto, por muito que os descartianos se esforcem por alcança-lo. O que sim, nao é intermitente, mas constante e perene é o Sentir, é o sentimento (como caracteristica humana), tal como a Escolha, o escolher.

Vejo o polaco, entre dois ou tres calhamaços de historia antiga. Sei que estuda arqueologia; deve ser belo. A inglesa farta-se de escrever; sei que anda às turras com um mestrado qualquer sobre filologia italiana. Um dos italianos estuda engenharia, e com o portatil à frente rabisca uns nùmeros em passos lògicos. O outro nem sequer sei o que estuda.
Questiono-me se me estao a Sentir, se estao a Sentir neste momento, se se contentam em sentir sò, e se isso os faz “existir menos”… Existirao?

Tenho um (novo?) amigo, com quem tenho convivido muito e bem, aqui em Erasmus, ha ja alguns meses. Respeito-o muito intelectualmente, pois… mas fisicamente dou-lhe uns pontapés de vez em quando, por isso nao o respeito.
Bem, ele é um existencialista radical, que (às vezes) ve o Ser como existencia solitària, em ùltima e profunda anàlise. Muito discutimos sobre isto, tal sao antagònicas as nossas visoes…
Havia de ser-lhe deveras apraz, caso lesse isto.

NexIs

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9 Responses to “Ensaio (para quem diz que o que eu escrevo é secante)”


  1. 1 Nexis
    Domingo, 26 Junho, 2005 às 19:03

    Gostava de escrever como o mestre LV às vezes… Virado prà porsa poética… Mas a mim da-me mais pràs filosofias, qu’é que se lhe ha-de fazer…

  2. 2 Koala
    Segunda-feira, 27 Junho, 2005 às 13:01

    cada um tem o seu estilo proprio… é disso k nos temos k orgulhar!Ha k manter as nossas caracteristicas.. somos unicos!! Siga pa bingoo!
    Um beijo

  3. 3 jorDas
    Segunda-feira, 27 Junho, 2005 às 14:51

    o existencialismo é a consagraçao da liberdade individual. o que diz é o seguinte: essencialmente nao és nada, ou dito de outro modo: nao tens uma essencia. ou de outro modo ainda: a tua essencia é posterior à tua existencia, de tal modo que a cada momento sò te cabe dizer: existo, eis o que sei! O que fazer dessa existencia é a substancia da minha liberdade. A solidao existencial é, primeiro que tudo, o reconhecimento desse estar-por-nossa-conta-e-risco incontornavel.
    A solidao existencial é em segunda anàlise o reconhecimento do misterio essencial de nòs para os outros e, antes mesmo disso, o mistério essencial de nòs para nòs mesmos (“fiz de mim mesmo o meu maior problema” Santo Agostinho). Essa opacidade essencial, essa impossibilidade de uma tranparencia final, totalizante, plenamente resolvida: eis humildade do ser humano.
    De qualquer modo nao penso que seja um “existencialista radical”… (ok, às vezes). Na medida em que também eu acredito (às vezes?…) em “Deus como o Absolutamente Outro”. Isto é: nao faz sentido, afinal, falar de de uma solidao definitiva que advem do desconhecimento da nossa autenticidade: o discurso da nossa autenticidade é-nos dado a cada momento que nos sentimos autenticamente em relaçao, quando ja nem sequer faz sentido falar de um “eu”, cerrado, limitado, solipsista. “Senhor, livra-me de mim” dizia Pessoa, orando. é assim que nos salvamos da solidao: na entrega ao outro…
    foda-se!

  4. 4 LV-426
    Terça-feira, 28 Junho, 2005 às 01:08

    Mestre? só se for do viveiro de termitas que teimam em esmiuçar os meus neuronios! Quanto à prosa poética… n sei exprimir-me de outra forma, é triste escrever o que sinto, pois quando releio, revivo todo o turbilhão de sentimentos… mas não conheço outra maneira de aliviar o meu Eu no estado mais puro.
    Quanto a ti… Sabes e sempre soubes-tes o que axo e como vejo o que escreves… palavras, raciocínios, ideias, lógicas e doutrinas que te saiem da cabeça… eu mais que as percebo, xego até a identifucar-me com elas… se bem que não tenho no meu caracter… conseguir exprimi-las dessa forma… Digamos… ke…

    Se tiveres ke ter alguma coisa haber comigo…
    Serás um complemento do que eu não consigo.
    Abraço Tiago Baptista. Não serás eskecido.

  5. 5 Rellax
    Terça-feira, 28 Junho, 2005 às 01:47

    Realmente, pra teorias e filosofias, está cá o Nexis…
    Eu confesso que não percebo nada de filosofia, mas depois de uma segunda leitura ao post, fiquei com uma dúvida. Já que pegaste no assunto, estou curioso em saber o vosso ponto de vista. Vamos ver se me explico:

    Partilho da opinião do Nexis de que a Escolha é o direito fundamental do Homem, é o que nos define como indivíduos únicos. Mas se essa Escolha se exerce, forçosamente, a um nível individual, isso não implica que a existência seja, no fundo, solitária? Se vivemos rodeados pelo Outro, mas a nossa vida é vivida por nós, estamos de facto por nossa conta no mundo…
    É a relação com o outro que nulifica essa visão (um bocado deprimente) da realidade? Ou é a procura do outro, a “entrega ao outro”, apenas a revolta do ser contra essa solidão?
    (Era então por isso que Pessoa escrevia? Para se tentar “livrar de si”?)

    Não sei se me expliquei bem. De qualquer forma fica a pergunta, porque não me apetecia comentar só pra dizer “grande post”.

    Grande post! []

  6. 6 Nexis
    Quinta-feira, 30 Junho, 2005 às 21:45

    Ora bem… vamos por partes. Ao Jordao:

    Sera sempre por estas e por outras k levaras bikeiradas nos tomates de madrugada quando eu chego e ja tas na “stanza 19” a dormir! Nunca ganharas akilo pk sp ansiaste desde k nasceste: O MEU RESPEITO FISICO!!!

    Desdizes-te, contradizes-te e maldizes-te: és ou nao és, seras, nao seras, és sempre a mema merda, e quando julgo ou julgas k te aproximas e concordas + com uma visao de alguem da vida, do eu, ou do transcendente tens reacçao alérgica e afastas-te dizendo k so te visita mas n habita ctg, entao explicas a teoria ou a visao do gajo, em dizes k tu nao és assim, pk n admites?!

    és um existencialista radical, na medida em k ves o hominidio como ser isolado e solitario, para além de confinado à sua existencia. Nao me metas pòs-vida nisto, pk é um subtrefugio baixo para cairmos na discussao teologica k tanto acalentou os nossos seroes invernais italianos.

    Por isso, em verdade te digo: vai levar no cu, GAY! (frase acompanhada de violento bikeiro na virilha eskerda, falhando o kilhao do mesmo lado)

    Ao Rellax(ado):
    Companheiro de muitas lutas contra o lado negro, elfos degenerados e descapotaveis lunares. A corrente de pensamento que descreve o homem como ser vivente solitario na essencia é interssante, chega a ser engraçada. O Jordao, é adepto dessa teoria, como se sofresse de clubite filosofica. Tu n deves ser, pk esse clube é uma merda. Pelo menos eu acho-o. (Conheceras o personagem Jordao em breve, k até estuda na tua amada FEUP e td, qd eu voltar à patria, qual D. Sebastiao retornado das Africas).
    Se as tuas escolhas sao individuais, nao significa k sejam solitarias, nem k as k escolhes fazer com alguem ou para alguem sejam originadas por um “empurrao” intimo de ti proprio em direçao ao outro e como fuga dessa tal “solidao isolante”… A tua vida, nao ser nunca isolada, em nenhum nivel, nem mesmo no mais importante: o mais profundo e superior. Nunca estas sozinho… Mas isso seria uma larga discussao para estar desperdiçada nos comments.

    Grandes abraços gays e beijinhos em glandes protuberantes. CAMBADA DE PANELEIRUUUSSSSSSSS :-p

  7. 7 Nexis
    Quinta-feira, 30 Junho, 2005 às 21:50

    Ja agora, o link para o blog do meu amigo Jordao, adepto da jorda como forma de estar é:

    http://www.neuronioanacronico.motime.com

    A jorda é um estilo k vale a pena conhecer e me tem influenciado mt desde k a conheci ha uns meses.

    Sem mais de momento.

  8. 8 Rellax
    Sexta-feira, 01 Julho, 2005 às 16:00

    Não, eu cá não sou adepto dessa teoria. Mas foi uma ideia que me ocorreu ao ler o texto, e gostei de te ver rebate-la.
    Eu, aliás, desenvolvi a partir do meu 10º ano uma reacção alérgica à filosofia, que me impede de meditar sobre assuntos filosóficos durante um período superior a 5 minutos, sem recorrer aos sempre inspiradores sites das meninas desnudas…

    Por outro lado, para quem se quer tornar especialista no assunto… Foi publicada aqui atrás uma lista de fotologs; a acompanhar cada fotografia é costume virem umas frases feitas muito giras. É só juntar água, por a ferver 2 minutos… A filosofia instantânea está pronta a servir!!

  9. 9 jorDas
    Domingo, 03 Julho, 2005 às 22:16

    duas palavras pra começar: foda -se!

    eu até podia responder-te as tuas paneleiradas, mas por ora tenho quatro coisas a fazer:

    a) responder a uma mensagem de gaja boa que acabei de receber

    b) passar no teu quarto ouvir a tua musica de merda antes de irmos à disco

    c) coçar o colhao esquerdo

    d) resposta a) e c)

    No entanto pensa sò no seguinte: se eu dormisse e fodesse com o existencialismo, como tu tao brochemente sugeres, se eu fosse infatti um “existencialista radical” naquele sentido de nao ponderar a ideia de uma superaçao da solidao onto-psico-espirito-bio-fodologica, porque serà entao que sou o tipo que te tenta entronizar mil vez ao dia o discurso da sintonia espiritual através do amor, em sacrificio da procura do puro deleite carnal (leia-se: broches)? Nao sera porque acredito realmente nela, meu brochador de ouriços?

    Eisch! E era uma grande volta explicar com maior extençao o pensamento existencialista que esboçei no ùltimo post com dois pequenos tòpicos. Seria deveras e assaz pertinente, de facto, quando me perguntas acerca da contrdadiçao consentida: “és ou nao és, seras, nao seras”. Repara se tu és real e verdadeiramente livre – como nao te cansas de afirmar – nao te podes ver a ti como um “objecto”, como uma “substancia”, como um “ente”. Nao podes dizer: eu sou “isto”, tenho esta “natureza”. Porque se tu és “algo”, entao tens que te ver a ti mesmo como uma substancia determinada que te pre-determina segundo a sua natureza. Tu tens uma natureza, vives numa circunstancia, estas condicionado por essa natureza e circunstancia. Mas “ès” essa natureza e essa circunstancia? Se nao pudesses ponderar um espaço de “nao-ser” o que se passaria na realidade sempre que dissesses “eu fiz isto livremente”, deverias dizer “eu fiz isto porque assim é a minha natureza”: nao seria mais que a reactualizaçao das potencialidades de todos esses elementos.

    Haveria bastante mais a esclarecer, mas ta a vigilante a mandar-me pro caralho formalmente. por isso fica com estes tòpicos:

    a) ès um paneleiro

    b) fazes broches a cavalos

    c) a) e b) simultaneamente

    d) salvem as baleias!


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