23
Fev
07

O senhor Basílio

Lembro-me, tinha eu uns 14 anos, de um episódio que alterou a minha personalidade. Morava no Urbimira (Ah, saudoso bairro!) e era daqueles miúdos que queria era rua: ficar até à hora do jantar, com quatro pedras jogar à bola na estrada, esconder-me nas obras, skates nos passeios… um verdadeiro puto de rua. Um certo fim de tarde, naquela hora mágica entre a chegada dos pais a casa (e consequente feitura do jantar) e a chamada prá mesa, jogava à bola eu e outros gandulos, à frente de casa, quando de novo, a bola foi parar à casa do senhor Basílio. Rapidamente um de nós se precipita às grades para recuperar a preciosa redondinha, mas desta vez, o senhor Basílio (parece que o estou a ver: todo vestido de cinzento, grisalho, zelante da casa dos filhos emigrados na Suiça) andava a regar, e desta vez finalmente cumpriu, e pegando na bola, levou-a para dentro, perante o ar intimidado de todos os putos imóveis no alcatrão, com derby interrompido.

— Esta, nunca mais a vedes! — o senhor Basílio, farto da repetição da cena, confirmava o nosso desgosto: não havia mais jogo naquele anoitecer, e pior; não havia mais a nossa bola!

A noite chegou, e a chamada prá mesa também. Na minha cabeça fervilhava a revolta, a injustiça e a hormonalmente alimentada sede de vingança adolescente. Nessa noite, pedinchei (como bem sabia) aos meus pais uma “saidinha, só por um bocadinho” para à rua, com vãs e repetitivas promessas de “eu não saio daqui da frente”… Cá fora, como um dos mais velhos da pandilha, reuni os mafarricos à minha volta, e sob minha égide concordamos que o malvado Basílio merecia uma réplica. Não podíamos ficar indiferentes “à nossa bola”! Sabíamos bem que a casa branca, de janelas verdes com portões a condizer estava vazia e fechada à noite: o senhor Basílio moraria nalgum outro ponto desconhecido da cidade, e embora passasse os dias a cuidar, a tratar e a limpar o jardim e a grande casa, à noite, voltava para a sua, onde quer que fosse. Não interessava. Nessa noite fiz da navalha de algum, bandeira, e em riste galguei os portões com a adrenalina a palpitar nas têmporas e um par mais de vadios atrás de mim. Ocultados pelas sombras, quais ninjas, fomos às traseiras à cuidada horta do senhor Basílio, e a golpes de lâminas e pontapés rodopiantes de filmes, despejamos a fúria animalesca, silenciosa e velozmente nos vegetais acarinhados do senhor Basílio…

Retiramos, e contentes, dormimos essa noite. E no dia seguinte inchados, nos levantámos e seguimos com as nossas despreocupadas vidas liceais. No final desse mesmo dia, na mesma hora mágica “do antes de jantar”, eu estava em casa (já quase esquecido da horta do senhor Basílio), e a campainha soou. Lembro-me muito bem, do Senhor Basílio à minha porta a falar com a minha mãe. Como era óbvio, a adolescente esperança do meu argumento da noite anterior «Isto não pode ficar assim e ele nunca vai saber que fomos nós!», era mesmo só isso: uma adolescente esperança. Obviamente tínhamos sido nós (a canalha da bola) a maltratar a hortita…

Do que o senhor Basílio disse à minha mãe já não me lembro. Tal como já não tenho ideia da pesada punição materna que suportei (felizmente não contou ao meu pai, creio). Do que me lembro bem, o que acho que não vou esquecer, é — para além do desgosto que dei à minha mãe (que sempre teve no filho único o exemplo de bom filho, que não faz ideia de muito do que eu já vivi), dos «Oh Tiago, tu que sempre foste tão bom menino, o que é que te deu agora? Oh valha-me Deus…» — o que tenho aqui bem marcado: o senhor Basílio, à frente da minha porta, agarrando no grelo dum par de nabos arrancados e metade duma grande folha de couve galega retalhada, com gordas lágrimas a escorrer por detrás dos espessos óculos, esforçando-se por disfarçar a voz trémula de tanta emoção e tanto desgosto.

Não sei o que significavam aqueles vegetais para o senhor Basílio, mas devia ser muito.

A partir daquele dia (apesar de não ter tido daqueles pensamentos que os mestres místicos gostam de dizer ter “esta profunda experiência faz com que, a partir de hoje nunca mais vá fazer isto”), nunca mais vi o sofrimento alheio da mesma forma! Ganhei grande consciência do mal que estava ao meu alcance, da dor que era capaz de causar e nunca mais voltei a ser mau gratuitamente. Mesmo.

Ainda hoje quando refaço toda a cena na minha cabeça me aparece aquele friozinho de dor-enorme-de-quem-quer-compensar-alguém-a-quem-fez-mal-mas-não-pode, indescritível. Aquela dor altruísta que se sente quando sê vê um velhote em sérias dificuldades para escalar um passeio?! Não sei se me faço entender, não sei se isto é algo partilhado.

Hoje, dez anos depois, a caminho do dentista, cruzei-me com o senhor Basílio no passeio. Não me reconheceu.

Nexis


2 Responses to “O senhor Basílio”


  1. 1 Dany
    Quinta-feira, 15 Março, 2007 às 23:28

    É sempre tao bom recordar os velhos tempos de criança… de adolescencia desenfreada em k tudo se vive ao limite sem plena consciencia do k ta certo ou errado…

    Bem Tiago, continua a escrever…é um dos teus maiores dons!!!

    Bjokas

  2. 2
    Domingo, 18 Março, 2007 às 18:24

    Eh destes pequenos “reonhecimentos” que a vida é feita.. Beijo da Mo


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